quinta-feira, 16 de julho de 2026

“NÃO OLHEIS OS NOSSOS PECADOS, MAS A FÉ QUE ANIMA A VOSSA IGREJA.”


 

Este trecho da oração da paz, no rito da Comunhão na Liturgia Eucarística, possui um profundo significado para a vida cristã. Muitas vezes, somos surpreendidos e até nos indignamos com os pecados dos cristãos, como se estes fossem máquinas perfeitas de plenitude. No entanto, ser cristão é buscar configurar-se a Cristo; porém, embora lavados do pecado original pelo Batismo (cf. Rm 6,3-4), ainda carregamos em nós a inclinação para o mal (cf. Gl 5,17), o que exige uma constante busca de conversão (cf. Mc 1,15).

    Pedimos ao Senhor que leve em consideração a fé e a intenção da comunidade eclesial, pois sabemos que nós, ministros e leigos, somos indignos das graças divinas por nossos próprios méritos (cf. Rm 3,23). Como diz o salmista: “Se levardes em conta as nossas faltas, Senhor, quem poderá subsistir?” (Sl 130,3).

     Os pecados dos ministros da Igreja podem até nos escandalizar (cf. Mt 18,7), mas não devemos esquecer que são homens e mulheres feitos do barro (cf. Gn 2,7), que todos os dias precisam aprender a deixar-se moldar pelas mãos do Senhor (cf. Jr 18,6).

     Por misericórdia divina, a eficácia dos sacramentos e das bênçãos concedidas pela Igreja não depende da santidade pessoal do ministro (cf. 2Tm 2,13), pois ele não age em seu próprio nome, mas é o próprio Cristo quem realiza a obra por meio dele (cf. Jo 15,5). O Papa Bento XVI, de saudosa memória, no dia de sua eleição, afirmou: “Consola-me saber que Deus sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes.” De fato, somos apenas instrumentos frágeis nas mãos de Deus (cf. 2Cor 4,7); é Ele quem realiza a obra, e nós, apesar de nossas limitações, colaboramos com o seu projeto (cf. 1Cor 3,9).

     Quando soubermos que um religioso caiu, lembremo-nos da Palavra: “Quem nunca pecou, atire a primeira pedra” (Jo 8,7) e “quem está de pé, cuide para não cair” (1Cor 10,12). Em vez de julgar (cf. Mt 7,1), rezemos (cf. 1Ts 5,17). Rezemos para que o Senhor envie mais operários para a sua messe (cf. Mt 9,38), mas também para que os santifique (cf. Jo 17,17), pois aqueles que foram chamados não são semideuses nem super-heróis. São pessoas limitadas que se colocaram a serviço de um amor maior e que, como qualquer outra, também podem se perder no caminho (cf. Lc 15,4).


domingo, 18 de janeiro de 2026

“EIS O CORDEIRO DE DEUS, QUE TIRA O PECADO DO MUNDO”

 


Ecce Agnus Dei, qui tollis peccata mundi  - “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Essa frase é muito conhecida pelos cristãos, sobretudo pela narração do evangelista João, e foi pronunciada pela primeira vez por João Batista quando avistou Jesus. Essa mesma frase é repetida em todas as missas, e não é por acaso: seu significado é profundamente teológico e está diretamente ligado à essência da fé em Jesus Cristo.

Quando falamos em Jesus e em João Batista, geralmente nos recordamos do episódio do Batismo no rio Jordão. Nele, encontramos a confirmação de que Jesus é o enviado pelo Pai para a missão de santificar o mundo. No rito do batismo, temos tanto o ato de batizar com a água quanto a unção com o óleo como sinal de confirmação. No caso de Jesus, é João quem batiza, mas é o Pai quem unge, confirmando ao dizer: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus o meu bem-querer” (Mt 3,17).

No Evangelho segundo Lucas[1], é narrado que Jesus, tomando as Escrituras, proclama: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu [...]” (Is 61,1). Essa leitura não foi uma simples coincidência, mas o anúncio público da confirmação feita pelo Pai durante o batismo no Jordão. Jesus é o escolhido e ungido do Pai, mas qual é a sua missão? Sua missão está no apontamento de João Batista: Ele veio ao mundo para ser o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo.

A figura do Cordeiro tem grande significado na teologia bíblica e na espiritualidade litúrgica. Não se trata de um simples animal oferecido em sacrifício, mas de um símbolo cuja profundidade ultrapassa o tempo e a realidade. No Antigo Testamento, várias vezes encontramos o cordeiro presente nas liturgias do povo de Israel: o cordeiro expiatório[2], o cordeiro como sinal da Aliança[3], o cordeiro cujo sangue é aspergido sobre o povo como sinal de uma nova aliança e de purificação dos pecados[4]. Todos esses elementos são prefigurações do verdadeiro Cordeiro, aquele que é imaculado e que, na Cruz, é oferecido de uma vez por todas como vítima de expiação para a salvação do mundo.

No aramaico, a palavra cordeiro é pronunciada talya, que significa “servo”. Esse termo se enquadra perfeitamente em Jesus Cristo, que é o Servo Sofredor anunciado pelo profeta Isaías[5]. Como servo obediente à vontade do Pai, Ele se entrega totalmente. Na profecia de Isaías[6], as palavras do Senhor são direcionadas a Israel, mas, por analogia, também as atribuímos a Jesus, o Messias, o novo Israel: “Tu és o meu servo, em quem serei glorificado” (Is 49,3). É em Cristo que está a glorificação do Pai, não por mera manifestação a um pequeno grupo ou povo, mas para todas as nações. Assim como, na manjedoura, o Pai é manifestado por meio de Jesus a todas as nações através da figura dos magos (Epifania)[7], a pessoa e a vida de Jesus são luz para as nações, para que a salvação chegue até os confins da terra.

Diante de tudo isso, podemos nos perguntar: quem é Jesus? Ele é o Cordeiro, o Servo; o Cordeiro que se torna Servo e o Servo que se torna Cordeiro. Aquele que carregou sobre si todas as nossas dores e enfermidades[8], ou seja, é Ele quem tira o pecado do mundo, pecado esse que nos foi deixado por nossos primeiros pais, Adão e Eva[9]. Se, pela desobediência, estávamos afastados de Deus Pai, pelo sacrifício e pelo sangue do Cordeiro, Servo obediente, fomos reabilitados para viver em Deus. Como diz São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios[10], fomos santificados em Cristo Jesus, chamados a ser santos, pois, no sacrifício redentor da Cruz, “fomos lavados e remidos pelo sangue do Cordeiro” (1Pd 1,19).

A imagem do Cordeiro imolado não é a de um animal morto, nem a de um Cristo morto, como muitos afirmam ao olhar para um crucifixo, mas a imagem do Cordeiro triunfante nos Céus[11], participante da glória do Pai, que, pelo seu sacrifício, também nos eleva a tão grandiosa participação. Como mencionado no início desta reflexão, a frase “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” é repetida pelo sacerdote em todas as missas, pois, sendo a Sagrada Comunhão a participação no sacrifício de Cristo, é-nos solenemente anunciado que a vítima oferecida não é mais a do Antigo Testamento, que necessitava de novos sacrifícios, mas o Cordeiro imaculado que comungamos na Santíssima Eucaristia. Ele é o mesmo Servo obediente que se ofereceu no altar da Cruz ao Pai pela nossa salvação e permanece conosco vivo e ressuscitado na Palavra de Deus, na vida da Igreja e na Hóstia consagrada, alimento da salvação, mistério da nossa fé.

 



[1] Lc 4, 18-19.

[2] Lv 14.

[3] Ex 12, 6-7.

[4] Ex 24, 8; Mt 26,27.

[5] Is 52,13-53,12.

[6] Is 49, 3.5-6.

[7] Mt 2,11.

[8] Is 53, 4-5.

[9] Gn 3.

[10] 1Cor 1,1-3.

[11] Ap 5, 6-14.

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Fonte da imagem: 79044a6e4f0ce210c7f060610f261a9f.jpg (736×1104) 

“NÃO OLHEIS OS NOSSOS PECADOS, MAS A FÉ QUE ANIMA A VOSSA IGREJA.”

  Este trecho da oração da paz, no rito da Comunhão na Liturgia Eucarística, possui um profundo significado para a vida cristã. Muitas vezes...