Ecce Agnus Dei, qui tollis peccata mundi - “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado
do mundo”. Essa frase é muito conhecida pelos cristãos, sobretudo pela narração
do evangelista João, e foi pronunciada pela primeira vez por João Batista
quando avistou Jesus. Essa mesma frase é repetida em todas as missas, e não é
por acaso: seu significado é profundamente teológico e está diretamente ligado
à essência da fé em Jesus Cristo.
Quando falamos em
Jesus e em João Batista, geralmente nos recordamos do episódio do Batismo no
rio Jordão. Nele, encontramos a confirmação de que Jesus é o enviado pelo Pai
para a missão de santificar o mundo. No rito do batismo, temos tanto o ato de
batizar com a água quanto a unção com o óleo como sinal de confirmação. No caso
de Jesus, é João quem batiza, mas é o Pai quem unge, confirmando ao dizer:
“Este é o meu Filho muito amado, no qual pus o meu bem-querer” (Mt 3,17).
No Evangelho segundo
Lucas[1], é
narrado que Jesus, tomando as Escrituras, proclama: “O Espírito do Senhor está
sobre mim, porque me ungiu [...]” (Is 61,1). Essa leitura não foi uma simples
coincidência, mas o anúncio público da confirmação feita pelo Pai durante o
batismo no Jordão. Jesus é o escolhido e ungido do Pai, mas qual é a sua
missão? Sua missão está no apontamento de João Batista: Ele veio ao mundo para
ser o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo.
A figura do Cordeiro
tem grande significado na teologia bíblica e na espiritualidade litúrgica. Não
se trata de um simples animal oferecido em sacrifício, mas de um símbolo cuja
profundidade ultrapassa o tempo e a realidade. No Antigo Testamento, várias
vezes encontramos o cordeiro presente nas liturgias do povo de Israel: o
cordeiro expiatório[2],
o cordeiro como sinal da Aliança[3], o
cordeiro cujo sangue é aspergido sobre o povo como sinal de uma nova aliança e
de purificação dos pecados[4].
Todos esses elementos são prefigurações do verdadeiro Cordeiro, aquele que é
imaculado e que, na Cruz, é oferecido de uma vez por todas como vítima de
expiação para a salvação do mundo.
No aramaico, a
palavra cordeiro é pronunciada talya, que significa
“servo”. Esse termo se enquadra perfeitamente em Jesus Cristo, que é o Servo
Sofredor anunciado pelo profeta Isaías[5].
Como servo obediente à vontade do Pai, Ele se entrega totalmente. Na profecia
de Isaías[6],
as palavras do Senhor são direcionadas a Israel, mas, por analogia, também as
atribuímos a Jesus, o Messias, o novo Israel: “Tu és o meu servo, em quem serei
glorificado” (Is 49,3). É em Cristo que está a glorificação do Pai, não por
mera manifestação a um pequeno grupo ou povo, mas para todas as nações. Assim
como, na manjedoura, o Pai é manifestado por meio de Jesus a todas as nações
através da figura dos magos (Epifania)[7], a
pessoa e a vida de Jesus são luz para as nações, para que a salvação chegue até
os confins da terra.
Diante de tudo isso,
podemos nos perguntar: quem é Jesus? Ele é o Cordeiro, o Servo; o Cordeiro que
se torna Servo e o Servo que se torna Cordeiro. Aquele que carregou sobre si
todas as nossas dores e enfermidades[8],
ou seja, é Ele quem tira o pecado do mundo, pecado esse que nos foi deixado por
nossos primeiros pais, Adão e Eva[9].
Se, pela desobediência, estávamos afastados de Deus Pai, pelo sacrifício e pelo
sangue do Cordeiro, Servo obediente, fomos reabilitados para viver em Deus.
Como diz São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios[10],
fomos santificados em Cristo Jesus, chamados a ser santos, pois, no sacrifício
redentor da Cruz, “fomos lavados e remidos pelo sangue do Cordeiro” (1Pd 1,19).
A imagem do Cordeiro
imolado não é a de um animal morto, nem a de um Cristo morto, como muitos
afirmam ao olhar para um crucifixo, mas a imagem do Cordeiro triunfante nos
Céus[11],
participante da glória do Pai, que, pelo seu sacrifício, também nos eleva a tão
grandiosa participação. Como mencionado no início desta reflexão, a frase “Eis
o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” é repetida pelo sacerdote em
todas as missas, pois, sendo a Sagrada Comunhão a participação no sacrifício de
Cristo, é-nos solenemente anunciado que a vítima oferecida não é mais a do
Antigo Testamento, que necessitava de novos sacrifícios, mas o Cordeiro
imaculado que comungamos na Santíssima Eucaristia. Ele é o mesmo Servo
obediente que se ofereceu no altar da Cruz ao Pai pela nossa salvação e
permanece conosco vivo e ressuscitado na Palavra de Deus, na vida da Igreja e
na Hóstia consagrada, alimento da salvação, mistério da nossa fé.
